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Fazia um mês que eu chegara ao colégio. Um mês de um duro aprendizado que me custara suores frios. Tinha também ganho o meu apelido: chamavam-me de Doidinho. O meu nervoso, a minha impaciência mórbida de não parar em um lugar, de fazer tudo às carreiras, os meus recolhimentos, os meus choros inexplicáveis, me batizaram assim pela segunda vez. Só me chamavam de Doidinho. E a verdade é que eu não repelia o apelido. Todos tinham o seu. HAVIA O CORUJA, O PÃO-DURO, O PAPA-FIGO. ESTE ERA O POBRE DO AURÉLIO, UM AMARELO INCHADO NÃO SEI DE QUE DOENÇA, QUE DORMIA JUNTO DE MIM. VINHA UM PARENTE LEVÁ-LO E TRAZÊ-LO TODOS OS ANOS. EM S. JOÃO NÃO IA PARA CASA, E SÓ VOLTAVA NO FIM DO ANO PORQUE NÃO HAVIA OUTRO JEITO. A FAMÍLIA TINHA VERGONHA DELE EM CASA. NUNCA VI UMA PESSOA TÃO FEIA, COM AQUELE CORPANZIL BAMBO DE PAPANGU. APANHAVA DOS OUTROS SOMENTE COM O GRITO: VOU DIZER A SEU MACIEL! MAS NÃO IA, COITADO. NEM ESTA CORAGEM DE ENREDO ELE TINHA. DORMIA COM UM RONCO DE GENTE MORRENDO E BOCA ABERTA, BABANDO. ÀS VEZES, QUANDO EU ACORDAVA DE NOITE, FICAVA COM MEDO DO POBRE DO AURÉLIO. OUVIA FALAR QUE ERA DE AMARELOS ASSIM QUE SAÍAM OS LOBISOMENS. CERTAS OCASIÕES NÃO PODIA SE LEVANTAR, E DIAS INTEIROS FICAVA NA CAMA, COM UM LENÇO AMARRADO NA CABEÇA. E SEU MACIEL NÃO RESPEITAVA NEM ESTA ENFERMIDADE AMBULANTE: DAVA NO POBRE TAMBÉM. ERA MAIS POR ESTUDOS. O PAPA-FIGO NÃO APRENDIA NADA. ESTUDAVA NUM LIVRO EM PEDAÇOS, DE TÃO VELHO, E NÃO PASSAVA PARA OUTRO. A MALA DELE, NO ENTANTO, FAZIA GOSTO: ARRUMADINHA E FECHADA. TINHA NO FUNDO A ESTAMPA DE UM SANTO. MAS NINGUÉM TOCASSE NELA QUANDO ELE A ABRIA. ERA TODA A SUA RAZÃO DE SER, AQUELA MALA.
UM DIA ME CONTOU QUE O PAI SE CASARA A SEGUNDA VEZ, QUE A MADRASTA NÃO GOSTAVA DELE. FOI O BASTANTE PARA QUE EU LHE FICASSE QUERENDO BEM. A HISTÓRIA DA MENINA ENTERRADA, A OPRESSÃO QUE NÓS TODOS SOFRÍAMOS NO COLÉGIO, ME FIZERAM UM CAMARADA DE AURÉLIO. PARA ELE TAMBÉM ERA O MESMO SE EU LHE QUISESSE MAL. AOS EXERCÍCIOS MILITAREM NÃO O DEIXAVAM IR. TINHAM NOJO DELE. MAL PEGAVA NUMA COISA, NINGUÉM A QUERIA COMER. TINHA UM CANECO PRÓPRIO PARA BEBER ÁGUA. E DIZIAM QUE OS PANOS DA CAMA DELE FEDIAM.
O PÃO-DURO ERA UM MENINO DA GUARITA, MANUEL MENDONÇA. GANHARA O NOME PELA SOMITIQUICE. RECEBIA DE CASA LATAS DE DOCES, QUE TRANCAVA NA MALA. COMIA NO RECREIO, E NUNCA NINGUÉM PROVOU UM PEDAÇO DADO POR ELE. O DIRETOR FOI À SUA MALA E ENCONTROU UMA QUITANDA LÁ DENTRO, E UNS PÃES VELHOS, DE DIAS, MURCHOS, MAIS DUROS DO QUE FERRO. SACUDIRAM NO QUINTAL. EU AINDA NÃO ESTAVA NO COLÉGIO NESSE DIA. FOI ASSIM QUE O SOMÍTICO GANHOU O APELIDO DE PÃO-DURO. O PAI ERA MARCHANTE DE GADO. DE VEZ EM QUANDO PASSAVA PELO COLÉGIO NA FRENTE DA BOIADA. PÃO-DURO NÃO GOSTAVA DESTAS PASSAGENS HUMILHANTES, PORQUE OS MENINOS VINHAM LHE PERGUNTAR, MANGANDO, DE QUEM O PAI DELE ERA VAQUEIRO. NINGUÉM MESMO GOSTAVA DELE. ENREDAVA DE TUDO:
- SEU MACIEL, SEU VERGARA ESTÁ ME CHAMANDO PÃO-DURO.
- SEU ZÉ AUGUSTO ESTÁ MANGANDO DO MEU PAI.
ERA UMA ESPÉCIE DE AGENTE PROVOCADOR DE BOLOS.
O CORUJA, NÃO: UM BOM EM TUDO. PEGARA O APELIDO POR CAUSADA DA CARA REDONDA E DOS OLHOS MIÚDOS. HÁ TRÊS ANOS QUE ESTAVA NO COLÉGIO, E APANHARA SOMENTE UMAS TRÊS VEZES. ERA UM RECORDE.
O ZÉ AUGUSTO VIVIA MAIS COMIGO NOS MEUS PRIMEIROS DIAS DE INTERNATO. CONHECIA O MEU AVÔ: O PAI MORAVA PERTO DO SANTA ROSA. E A FAMA DO VELHO ZÉ PAULINO CORRIA MUNDO. GOSTÁVAMOS DE FUCAR CONVERSANDO SOBRE COISA NENHUMA, NESTE INGÊNUO BATE-BOCA DE MENINO. CONTAVA-ME QUE IA PASSAR A SEMANA SANTA EM CASA. A MELHOR NOTÍCIA QUE SE PODIA TER POR LÁ ERA ESTA: IR PARA CASA. AS FÉRIAS SERIAM EM ABRIL, E SE FALAVA DELA EM JANEIRO, COMO SE FOSSEM NA OUTRA SEMANA. EU SÓ VOLTARIA EM S. JOÃO. SEIS MESES, CENTO E OITENTA DIAS. ELE RECEBIA CARTAS DE CASA, DE SUA MÃE. ESTAVA ELA MUITO DOENTE DOS OLHOS, E LHE MANDAVA UM CAIXÃO COM FRUTAS E LATAS DE DOCE.
SOMENTE AURÉLIO E EU NÃO RECEBÍAMOS NADA DE CASA. HÁ UM MÊS ALI, E NEM UM RECADO. ISTO ME DIMINUIA, ME DAVA A IMPRESSÃO DE QUE FOSSE UM ABANDONADO, UM ESQUECIDO, SEM NINGUÉM QUE GUARDASSE DE MIM UMA RECORDAÇÃO QUALQUER. ATÉ O VERGARA, O PIOR ALUNO, RECEBIA COISAS DE CASA, E VINHA UM CORRESPONDENTE VISITÁ-LO, E PASSAVA OS DOMINGOS FORA. EU E AURÉLIO, A SOFRERMOS UMA EXCEÇÃO QUE ME MAGOAVA. PAPA-FIGO NEM SE IMPORTAVA. AS INJUSTIÇAS DO MUNDO NÃO LHE MERECIAM UMA RECLAMAÇÃO. ELE NÃO SENTIA, NÃO SE JULGAVA INTIMAMENTE; A CRUELDADE DO DESTINO PARECIA-LHE INDIFERENTE. A SUA ALMA NÃO ERA CAPAZ NEM DE ALEGRIAS NEM DE PESARES. QUE LHE IMPORTAVA UMA VISITA, UMA CARTA, UM AGRADO DOS OUTROS? MAS EU GOSTAVA DESSAS COISAS. SONHAVA COM UMA MÃE QUE ME ESCREVESSE, COM A VISITA QUE ME VIESSE BUSCAR PARA AS FEIRAS, QUE ME MANDASSE LATAS DE DOCE.
UMA VEZ, NUMA TERÇA-FEIRA, ME ENCONTREI SOZINHO COM AURÉLIO NO COLÉGIO. TODOS HAVIAM SAÍDO.
TREPAMOS NAS CADEIRAS PARA OLHAR A RUA POR CIMA DAS RÓTULAS. PASSAVA GENTE COM CESTAS VOLTANDO DA FEIRA. E UM MOLEQUE GRITOU PARA AURÉLIO:"
PÁGINAS 104 E 105 DO LIVRO "DOIDINHO" DE JOSÉ LINS DO REGO.
ONDE AINDA ESTAVA PRESERVADO O MEU TREVO DE QUATRO FOLHAS.
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