quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Lá estou eu de novo às voltas com minhas velhas contradições teóricas. É essa a expressão? Sei lá. Pouco importa se eu não terminar. Mas se terminar cedo demais? Também não importa. Nesse caso, vou falar das coisas que ainda permanecem em meu poder, coisa que sempre quis fazer. Uma espécie de inventário. Seja como for, é o tipo da coisa que devo deixar para o último instante, para ter a certeza de não haver cometido nenhum equívoco. De qualquer jeito, é a coisa que vou realmente fazer, aconteça o que acontecer. Não vai me levar mais do que quinze minutos, no máximo. Vale dizer que poderia tomar mais tempo, se eu quisesse. Mas se faltasse tempo, no último momento, um breve quarto de hora seria o bastante para eu traçar meu inventário. Meu desejo, de agora em diante, é ser claro, sem ser chato. Sempre quis isso. Óbvio, posso expirar de repente, a qualquer momento. Não seria melhor que eu falasse das minhas posses sem maiores delongas? Não seria mais esperto? E, então, se necessário, no último momento, corrigir alguns senões. É o que a lógica aconselha. Mas a lógica, no momento, não tem muito a ver comigo. Todas as coisas correm juntas para me encorajar. Mas será que eu poderia me resignar à possibilidade de morrer sem deixar um inventário durando depois de mim? Lá estou eu de novo às voltas com picuinhas.
               malone morre samuel beckett


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